Reforma Tributária nas Agências de Turismo

A reforma tributária já produz efeitos para empresas de turismo em 2026. Entenda o que muda nos impostos, nos preços e no dia a dia da sua agência — e o que fazer agora para não ser pego de surpresa

6/4/20265 min read

A reforma tributária brasileira deixou de ser uma discussão distante e passou a produzir efeitos práticos para empresas de turismo já em 2026. O novo sistema de impostos está em fase operacional, e o setor se vê diante de um cenário que vai muito além de ajustes contábeis.

A mudança afeta a forma como serviços são tributados, como contratos são estruturados, como notas fiscais são emitidas e, principalmente, como os preços chegam ao consumidor final. Para um setor que depende de intermediação e prestação de serviços, como o turismo, qualquer alteração tributária mexe diretamente nas margens, no fluxo de caixa e nas estratégias comerciais.

E os números mostram que o setor ainda não está pronto: segundo a pesquisa Pulso Turismo: Expectativas 2026, apenas 32,48% das empresas afirmam estar preparadas para lidar com as mudanças, enquanto quase metade admite não saber avaliar o próprio nível de preparação.

Simplificação não significa imposto menor — e os preços das viagens devem subir

O principal equívoco entre empresários do turismo é acreditar que simplificar o sistema tributário significa pagar menos imposto. Essa leitura não corresponde ao que deve acontecer na prática.

O que muda é a forma como o imposto é cobrado — não necessariamente o valor total. O governo busca reduzir a complexidade, acabar com disputas entre estados e municípios e tornar o sistema mais transparente. Mas para setores intensivos em serviços, como o turismo, a tendência é que a carga tributária aumente ao longo da transição.

Isso atinge praticamente toda a cadeia: hotelaria, transporte, agências e operadoras — todos segmentos que já trabalham com margens pressionadas e que terão dificuldade de absorver custos adicionais sem repassar parte deles ao consumidor.

Para entender a dimensão da mudança, basta comparar os números: serviços turísticos hoje são tributados pelo ISS com alíquotas entre 2% e 5%. Com o novo modelo, esses mesmos serviços passam a ser impactados pelo IBS, cuja alíquota pode chegar a 17,7%, e pela CBS, que pode atingir 8,8%. O impacto exato vai depender do tipo de fornecedor, do regime tributário adotado e da capacidade de aproveitamento de créditos.

No fim do processo, quem paga o imposto é sempre o consumidor. As empresas podem absorver parte do custo por algum tempo para preservar competitividade, mas isso não se sustenta indefinidamente. O aumento não será imediato nem uniforme, mas a tendência é que viajar fique mais caro à medida que o novo sistema for substituindo o antigo.

O impacto é diferente para agências de lazer e agências corporativas

Um ponto que passa despercebido por muitas empresas é que a reforma não afeta todas as operações da mesma forma. O tipo de cliente atendido muda significativamente o efeito da nova tributação.

Quando a agência de viagens vende para uma empresa, o cliente corporativo consegue aproveitar créditos tributários gerados na operação. Parte do imposto pago pode ser recuperada, reduzindo o impacto real no custo da viagem. Já quando a venda é feita para pessoa física, esse mecanismo não existe. O consumidor final paga integralmente o imposto embutido no preço.

Na prática, isso significa que agências focadas em turismo de lazer podem sentir mais pressão sobre preços e margens do que aquelas com carteira corporativa. Algumas empresas vão perceber que precisarão aumentar sua participação no segmento corporativo. Outras terão de revisar taxas de serviço, comissões e estrutura de preços.

Não se trata apenas de uma mudança contábil — é uma mudança estratégica. Quem entender isso cedo terá vantagem competitiva, porque conseguirá se adaptar antes e negociar melhor com fornecedores e clientes.

Adequação fiscal passa a ser obrigatória — e não há mais espaço para informalidade

Além do impacto nos custos, 2026 marca mudanças práticas no dia a dia das empresas, especialmente na emissão de documentos fiscais. Muitas operações — principalmente as menores — ainda emitem apenas recibos ou funcionam sem estrutura fiscal completamente organizada. Isso tende a acabar.

A exigência de emissão correta de nota fiscal, com detalhamento adequado das operações, passa a ser regra. O sistema tributário se torna cada vez mais integrado digitalmente, e o cruzamento de dados entre empresas e governo será mais eficiente. Quem não estiver organizado pode enfrentar problemas fiscais e operacionais sérios.

Mas a adequação vai além da emissão de notas. A reforma exige revisão contratual, reestruturação de processos e atualização tecnológica. Contratos de longo prazo precisarão prever ajustes de preço. Fornecedores terão de renegociar condições comerciais. Empresas precisarão revisar como organizam suas operações para evitar perda de margem ao longo da transição.

O período de transição vai ficar mais confuso antes de melhorar

Existe uma expectativa comum de que, quando a reforma entrar em vigor, tudo ficará mais simples imediatamente. Na prática, acontece o contrário.

Durante vários anos, empresas precisarão conviver simultaneamente com o sistema antigo e o novo — o que exige controles paralelos, ajustes constantes e revisão contínua de processos. Antes de melhorar, o sistema tende a ficar mais complexo.

A transição ocorre de forma gradual entre 2026 e 2033:

2026: início da fase operacional com alíquotas-teste — CBS em 0,9% e IBS em 0,1%.

2027: CBS entra em vigor definitiva, PIS e Cofins são extintos, e o split payment B2B começa de forma opcional.

2027–2028: fase de ajuste e transição inicial do IBS.

2029–2032: substituição progressiva de ICMS e ISS pelo IBS.

2033: IBS e CBS substituem integralmente todos os tributos atuais.

Empresas que começarem a se adaptar agora terão mais tempo para ajustar rotinas e corrigir problemas. Quem deixar para depois enfrentará dificuldades maiores quando a mudança chegar de fato ao caixa.

O que sua empresa de turismo deve fazer agora

Diante desse cenário, os especialistas são unânimes: 2026 é o ano de agir, não de observar. Veja os pontos prioritários:

Acompanhe a regulamentação de perto. As regras detalhadas — incluindo alíquotas diferenciadas e possibilidades de crédito — ainda estão sendo definidas. Fique atento às atualizações da Receita Federal e das entidades do setor, como Abav e Fecomércio, que acompanham o tema continuamente.

Reavalie seu regime tributário. Empresas no Simples Nacional ou no Lucro Presumido devem analisar qual regime será mais vantajoso com a nova sistemática. Os optantes pelo Simples Nacional poderão adotar tributação regular específica para IBS e CBS, o que permite crédito integral para o tomador dos serviços — um diferencial importante para quem atende o mercado corporativo.

Revise sua política de preços e contratos. Com o possível aumento da carga tributária, é fundamental planejar reajustes com antecedência e incluir cláusulas contratuais que permitam renegociação em caso de alteração de tributos. Indicar de forma expressa todos os impostos incidentes no preço facilita futuras discussões comerciais.

Atualize sistemas e capacite equipes. Sistemas de emissão de notas fiscais, gestão financeira e controles internos precisarão estar prontos para operar com o novo modelo. O ideal é que esse processo de atualização já esteja em curso.

Simule cenários antes que a mudança chegue ao caixa. Empresas que não fizerem simulações completas sobre como serão afetadas podem ser surpreendidas negativamente nos próximos anos. Entender o impacto real sobre margens e preços é o passo mais importante neste momento.

A reforma tributária é inevitável. O que muda é a forma como cada empresa reage a ela. Quem entender cedo os impactos e se organizar terá menos dificuldades. Quem ignorar o tema pode ser surpreendido quando os efeitos aparecerem nos custos e no fluxo de caixa.

O turismo brasileiro está entrando em uma fase de maior profissionalização — e essa mudança será determinante para o futuro de muitas empresas.